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Carreira acadêmica: Mães pesquisadoras relatam desafios na maternidade

Carol Amorim/Algo Mais Consultoria e Assessoria

A chegada da maternidade costuma ser desafiadora para as mulheres, sobretudo quando elas se dedicam a outras atividades, como a vida profissional. É nesse momento que a jornada duplica e até mesmo triplica para dar conta dos afazeres anteriores e posteriores à maternidade. Essa realidade também passa a fazer parte das mães que escolheram seguir a carreira científica e que, apesar do novo compromisso que representa a chegada de uma criança, buscam superar os obstáculos para perseguirem seus objetivos sem deixar de amparar seus pequenos.

Desde o ano passado, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) disponibiliza na plataforma currículo lattes o campo de licença-maternidade, que contribui pela equidade de gênero na área científica. Anteriormente, dados do Programa Jovens Pesquisadoras do CNPq já apontavam que as mulheres tendem a diminuir os avanços na carreira científica com o tempo, apesar de serem 49% dos cientistas que atuam no Brasil, segundo relatório sobre Gênero no Cenário de Pesquisa Global, publicado em 2017 pela Elsevier.

A doutoranda Valesca Macedo, 34, representa essa porcentagem de cientistas atuantes no país. E, durante a pandemia, quando o sentimento de incerteza era vivido por todos, ela soube que estava grávida de uma menina, a Liz, hoje com 1 ano e 4 meses. Apesar do momento delicado, Valesca conta que a notícia foi recebida com alegria já que a criança já era desejada por ela e pelo marido.

“Foi muito difícil vivenciar o momento mais desejado por mim e por meu esposo no meio da pandemia. Ficamos ilhados, mas bem unidos e próximos”, salienta.

Foto: Divulgação

Doutoranda cogitou desistir da carreira após se tornar mãe

Ela conta que, além do apoio do esposo, obteve a compreensão do seu orientador, de colegas de turma e da coordenação do programa de pós-graduação em Sociedade, Tecnologias e Políticas Públicas, do Centro Universitário Tiradentes (Unit/AL), do qual faz parte. E que, apesar disso, diante da mudança de rotina e de todas as tarefas a cumprir, não foi imune ao pensamento de cogitar desistir do doutorado.

“A demanda da academia junto à maternidade parece surreal, parece muitas vezes impossível continuar. Pensei milhares de vezes em desistir e se eu não tivesse uma rede de apoio – o pai da Liz e meu esposo -, não conseguiria”, afirma.

Nessa fase, para conseguir dar conta dos compromissos referentes ao doutorado, antes do nascimento de Liz, Valesca buscou adiantar o máximo de atividades que pode para se dedicar com tranquilidade aos quatro meses de licença-maternidade. Com o retorno das atividades acadêmicas, a doutoranda buscou o auxílio de babás e creches, além do auxílio do marido para conseguir continuar atuante na área científica.

“Pessoas da família questionavam sobre onde e com quem Liz ficaria quando eu voltasse às aulas e, quando isso acontecia, eu sentia que eles pensavam ‘essa mãe não está sendo completa porque ela vai se dedicar ali, em algum instante do dia, para as suas demandas profissionais e acadêmicas’. Então, eu senti essa pressão da família”, revela.

Apesar da cobrança e do excesso de compromissos, Valesca reforça que uma rotina bem traçada contribui para que ela consiga dar a atenção necessária para a filha, superar os obstáculos e também se dedicar à carreira que escolheu.

Mães cientistas durante a pandemia

Em levantamento realizado pelo movimento Parent in Science, onde quase 10 mil estudantes de mestrado e doutorado foram entrevistados entre abril e maio de 2020, foi apontado que, apesar das mulheres serem maioria na pós-graduação, apenas 27% delas conseguiram trabalhar remotamente durante o período de confinamento.

As pós-graduandas mães e negras foram as mais penalizadas, apontou a pesquisa. Segundo o estudo, 25,7% das entrevistadas pertencem a esse grupo e apenas 9,9% dessas mulheres tiveram condições de seguirem com os projetos acadêmicos. Já sobre as mães brancas, 11,6% conseguiram manter os compromissos acadêmicos.

A pesquisadora doutora e professora da Unit/AL, Viviane Galvão, 37, também mãe, avalia que o período de pandemia foi desafiador, sobretudo para quem, como ela, tem filhos pequenos em casa. Mãe de Maya, hoje com 5 anos, Viviane conta que durante o confinamento teve o apoio do esposo, também professor, para dar conta dos afazeres domésticos, dos cuidados com Maya e da carreira acadêmica.

“Como a Maya ainda não tinha idade escolar nesse começo de pandemia, nós aproveitamos para fazer o desfralde e tirar a chupeta. Inventamos jogos e pintamos muito. Fico emocionada só de pensar que daqui a poucos dias ela vai tomar a vacina dela contra a covid-19. Aos poucos o medo foi dando lugar à esperança. O contato com os alunos (ainda que remotamente) e a leveza da nossa criança tornaram as coisas melhores”, pontua.

Viviane ressalta que após ser mãe, contou também com o apoio da instituição de ensino, da família, colegas e até mesmo dos seus orientandos.

“Por sorte, meu ambiente de trabalho foi e é muito acolhedor, Maya recebe tanto carinho dos meus colegas e orientandos que ela chegou um dia a dizer que queria ser professora também”, revela.

Para que, assim como ela, outras mães cientistas sejam incentivadas a permanecer na jornada acadêmica, a professora avalia que a possibilidade de acrescentar o período de licença-maternidade no currículo lattes foi uma vitória para a igualdade na área acadêmica, já que plataforma é a principal fonte de avaliação usada pelas instituições de ensino e pesquisa, para que sejam feitas avaliações para a concorrência de bolsas, por exemplo.

“Mesmo durante a licença maternidade, os nossos prazos para enviar artigos, emitir pareceres e etc, não terminam. Logo, levar em consideração esse período para entender nosso currículo diante da ‘pausa’ para cuidar do recém-nascido é muito bom”, comemora.

Por fim, Viviane confessa que para o futuro, prometeu a si continuar em busca de mais desafios na sua carreira. Mas que esses desafios não a impeça de estar presente nos cuidados com a sua filha. “A Maya é sempre o elemento principal de todos os planos”, frisa.

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