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Precisamos falar de cooperativismo: a transição da energia circular e a inclusão financeira pela intercooperação

Em homenagem às catadoras de materiais recicláveis do Agreste Alagoano

Por Marcus Vinicius Peixoto – jornalista e escritor

Precisamos falar sobre… cooperativismo.

Basta abrir um relatório de sustentabilidade ou ir a um evento corporativo na Faria Lima para dar de cara com a sigla ESG sendo um verdadeiro “hype” no mercado – em um cenário onde, aliás, a maioria das coisas têm sido tão pouco inovadoras quanto abordar o tema inovação como se fosse, de fato, uma novidade. A verdade nua e crua é que a preservação ambiental, a responsabilidade social e as boas práticas de governança já eram realidade em vários rincões do Brasil muito antes de se tornarem tendência nos relatórios das multinacionais.

Eu demonstrei essa tese na obra “ESG e Tal: 60 Horas de Diálogo sobre Sustentabilidade para um Mundo Melhor”. Uma breve observação em uma região como o Agreste Alagoano identifica uma agenda viva de sustentabilidade prática. Falo de catadoras que transformam cotidianamente o descarte urbano em preservação e cidadania.

Recentemente, mergulhando na realidade do nosso território com as incríveis mulheres da ASCARC (Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Craíbas) — com quem a ESG e Tal desenvolveu um projeto que, em apenas seis meses, retirou meia tonelada de PET das ruas, economizou um volume de água equivalente ao consumo de uma família de quatro pessoas no Nordeste por mais de cinco meses e neutralizou 1,5t de CO2e —, me deparei com uma dúvida que volta e meia reaparece nas organizações em que atuei ao longo de uma trajetória de quase 30 anos: “O que é melhor: uma associação ou uma cooperativa? O que muda, na prática, ‘no bolso’ de cada pessoa?”

Esse dilema é compartilhado por milhares de entidades, desde as catadoras da ASCARC e de lideranças como dona Maria do Socorro da Silva – presidente da Associação de Catadores de Resíduos Sólidos de Arapiraca (ASCARA) e que também já vivenciou a força de parcerias inclusivas como na participação do projeto Vestindo Minha Família, uma parceria do Comitê de Desenvolvimento de Comunidades (COMOVIMENTO) da Sicredi Expansão com o Senac e o Sebrae Alagoas – aos milhares de arranjos produtivos locais por todo o país que buscam conciliar inclusão social produtiva e justiça ambiental. Por isso, nesse segundo artigo da série “Precisamos falar sobre…”, ao retomar a publicação semanal de temas de interesse sobre a agenda de sustentabilidade, fui incitado pela ESG e Tal a falar sobre associativismo e cooperativismo de forma clara, didática e objetiva. Direto ao ponto.

A transformação de material reciclável no Agreste Alagoano em dignidade e preservação ambiental é um exemplo concreto de materialização da agenda ESG

Associados em cooperação?
Qual é o “Nó” da questão?

À primeira vista, associativismo e cooperativismo parecem irmãos gêmeos. Ambos nascem da união voluntária de pessoas, operam sob valores democráticos (cada membro tem direito a um voto) e se afastam da lógica tradicional de maximização do lucro. Mas a linha que os separa é tanto econômica quanto jurídica.

Uma associação é uma entidade de direito privado civil, sem fins lucrativos. Seu foco, portanto, tem relação direta com o bem-estar coletivo, defesa social e representação política. Na economia circular, ela pode contribuir de maneira extremamente significativa para organizar o início do ecossistema, receber doações e buscar apoios. Mas como a estrutura de uma associação sem fins lucrativos a proíbe de distribuir lucros ou dividendos aos seus associados, conselheiros ou instituidores, ela deve, por sua natureza, buscar alternativas à dependência crônica de doações para a manutenção de suas operações.

Quando o volume de material cresce, a associação enfrenta dificuldades estruturais para emitir documentos fiscais sistemáticos, planejar novos investimentos e ampliar a escala. Em um estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o pesquisador Sandro Pereira Silva joga luz sobre esse gargalo estrutural:
“Os empreendimentos são marcados por uma grande heterogeneidade estrutural, em um conjunto de fatores que impacta (…) no nível de eficiência e produtividade do trabalho, no rendimento médio, das condições de trabalho e (…) na satisfação dos catadores em fazer parte de um empreendimento coletivo”.

A falta de escala e a fragilidade jurídica limitam consideravelmente o faturamento direto do trabalhador, na ponta. É o que a literatura trata como o dilema entre a coleta de subsistência e o avanço da reciclagem de alto valor agregado, incluindo, por exemplo, “espaços adequados para armazenar e separar o material recolhido e programas de financiamento para seu processamento e agregação de valor” (Silva, 2017, p. 25).

Uma cooperativa, por sua vez, consiste em uma sociedade de pessoas com natureza comercial, concebida especificamente para viabilizar economicamente a atividade dos seus membros. Enquanto o foco da associação está na defesa dos direitos, a cooperativa busca priorizar o retorno financeiro para os cooperados. Isso abrange a comercialização em escala da produção, a modernização da atividade e a melhoria contínua da gestão, operando com o mesmo rigor das grandes empresas.

Na cooperativa de reciclagem, espera-se, portanto, que as cooperadas negociem contratos diretamente com grandes indústrias nacionais, eliminando a interferência de atravessadores. Além disso, os resultados líquidos do período (as chamadas “sobras”) são distribuídos de maneira estritamente proporcional ao trabalho e à produção de cada membro. A cooperativa transforma o trabalhador de um prestador de serviço informal em um sócio consciente e tomador de decisões.

Dilemas e potencialidades: a sutil linha jurídica e econômica que traz à tona um debate sobre acolhimento social e viabilidade comercial na base da cadeia de valor

Cooperativismo: um Catalisador da Inclusão e da Justiça Econômica

Uma análise estruturada de cada formato acrescenta novas variáveis ao debate, já que os gargalos que historicamente impõem desafios ao avanço de organizações de catadoras em direção a uma estrutura cooperativa não se relaciona à força de trabalho — algo que as mulheres neste setor, em geral, têm de sobra. O que se observa é que as grandes barreiras residem em questões de inclusão e educação financeira.

Em termos práticos, como exigir que uma catadora realize o seu duro trabalho cotidiano e, ainda, gerencie notas fiscais, orçamentos, compre prensas hidráulicas e maquinários e negocie com grandes indústrias? Tudo isso ocorre em um sistema financeiro que, não raramente, torna as operações básicas quase impossíveis de se realizar para esse público, a exemplo de uma simples abertura de conta bancária jurídica – seja pela complexidade do formato digital, seja pela imposição de taxas abusivas.

Historicamente, dados consolidados pelo Atlas da Economia Solidária revelam que 72% das entidades de economia solidária (EES) da região Nordeste enfrentam dificuldades na comercialização de seus produtos e 56% delas se deparam com problemas de crédito, o que tornam essas questões as maiores barreiras à sobrevivência dessas organizações no país.

A solução para esse impasse estrutural está na intercooperação, um dos princípios do movimento. Nesse sentido, as cooperativas de crédito de livre admissão desempenham um papel fundamental como catalisadoras desse processo de transição, reinvestindo na própria região o dinheiro ali captado.

Ao analisar o impacto do cooperativismo de crédito sobre a expansão do sistema financeiro nacional, o economista Juliano Assunção quantificou essa capacidade de inclusão geográfica e social:
“A análise dos dados, realizada por meio da avaliação de estatísticas básicas e da visualização da distribuição dos municípios atendidos por diferentes tipos de agência bancária ou de sistema cooperativo, permite caracterizar as cooperativas enquanto arranjo eficaz de promoção da bancarização em municípios menores, mais rurais e mais isolados”.

Enquanto agências bancárias tradicionais exigem mercados de grande escala e se concentram exclusivamente em áreas densamente povoadas, as instituições financeiras cooperativas operam com fundamentos que reduzem os custos fixos de entrada e viabilizam de forma sustentável o atendimento em municípios de menor porte.

Quando o cooperativismo de crédito entra em campo oferecendo microcrédito orientado, contas adaptadas à realidade local e, ainda, iniciativas de alfabetização financeira. Um exemplo é o caso do programa Cooperação na Ponta do Lápis, promovido pela Sicredi. Uma reportagem detalhou a capilaridade da ação, que promove exercícios práticos e conteúdos estritamente adaptados à rotina, à renda e aos desafios locais de cada público.

Essas iniciativas oferecem muito mais do que infraestrutura ou crédito: elas apoiam a disseminação da cidadania, preparando os participantes para gerirem o seu patrimônio, decidirem coletivamente e planejarem o seu futuro de maneira autônoma.

O cooperativismo, portanto, não se resume a uma assinatura em cartório: trata-se de uma decisão estratégica de governança. No caso da economia circular, ele é fundamental para que o protagonismo da transição justa ocorra nos territórios. Para as catadoras, pode ser a ponte entre a subsistência socioeconômica e a emancipação definitiva. Precisamos parar de “romantizar” o esforço de quem limpa as nossas cidades e cooperar, de verdade. Tanto na mesa quanto no bolso.

Referências

ASSUNÇÃO, Juliano. Benefícios do Cooperativismo de Crédito: impacto sobre a bancarização. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) / Sicredi, 2020.

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Atlas da Economia Solidária no Brasil 2005-2007. Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES); Organização: Associação Nacional dos Trabalhadores e Empresas de Autogestão e Participação Acionária (ANTEAG). São Paulo: Todos os Bichos Editora, 2009.

DIÁRIO DO NORDESTE. Educação financeira: Sicredi reforça importância da prática para bem-estar do público. Escrito por Agência de Conteúdo DN. Negócios. Fortaleza, 18 de maio de 2026. Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/negocios/educacao-financeira-sicredi-reforca-importancia-da-pratica-para-bem-estar-do-publico-1.3764431.

PAINEL NOTÍCIAS. Projeto Vestindo Minha Família lança sua primeira turma no interior de AL. Publicado em 23 de junho de 2021. Disponível em: https://painelnoticias.com.br/geral/193813/projeto-vestindo-minha-familia-lanca-sua-primeira-turma-no-interior-de-al.

SILVA, Marcus Vinicius Peixoto da. ESG e Tal: 60 Horas de Diálogos sobre Sustentabilidade para um Mundo Melhor. Ilustrações de José Adnael Silva. Arapiraca, AL: ESG e Tal Editora / UICLAP, 2025 (ISBN 978-65-989773-0-6).

SILVA, Sandro Pereira. A organização coletiva de catadores de material reciclável no Brasil: dilemas e potencialidades sob a ótica da economia solidária. Texto para Discussão, nº 2268. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 2017.

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