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Alagoas entre a emancipação e as novas amarras: Quando a fé se curva ao poder

Por Elias Barboza

Em 16 de setembro de 1817, Alagoas deixou de estar administrativamente subordinada a Pernambuco. O decreto de D. João VI criou a Capitania das Alagoas, com governo próprio, separando-a da Capitania de Pernambuco. Mas a história de uma emancipação política não termina no momento em que um decreto é assinado. A verdadeira emancipação de um povo é um processo permanente: passa pela liberdade, pela consciência histórica, pelo combate às desigualdades e, sobretudo, pela capacidade de uma sociedade não permitir que novos poderes substituam as antigas formas de dominação. E é justamente aí que a história de Alagoas encontra uma contradição incômoda.

Sendo assim, passo a discorrer o tema-, da liberdade política à herança da escravidão. Alagoas que conquistou autonomia em 1817 era uma sociedade profundamente marcada pela escravidão, pela concentração da terra e pelo poder das elites econômicas. Antes mesmo da emancipação, o território alagoano havia sido palco de um dos maiores símbolos da resistência negra à escravidão: o Quilombo dos Palmares, cuja existência marcou profundamente a história brasileira e alagoana. Palmares representa uma pergunta que continua atual: o que significa liberdade quando uma parte da sociedade continua submetida à vontade de outra? Escravizada pela ignorância, falta de cognição e percepção político social.

A pergunta não pertence apenas ao passado. A escravidão acabou juridicamente em 1888, mas suas consequências sociais não desapareceram com uma assinatura. O Brasil carregou para dentro da República estruturas de desigualdade, racismo, concentração econômica e exclusão social. Por isso, celebrar a emancipação política de Alagoas sem discutir seus conflitos históricos é transformar a história em cerimônia, bandeira e discurso oficial. A emancipação precisa ser também consciência. E a consciência histórica incomoda.

É nesse ponto que surge outro fenômeno contemporâneo, a relação entre setores do evangelismo brasileiro e determinados projetos políticos da extrema direita. É preciso fazer uma distinção importante- não se pode colocar todas as igrejas evangélicas, todos os pastores ou todos os fiéis dentro da mesma categoria. Há milhares de comunidades evangélicas que realizam trabalhos sociais, defendem a democracia, combatem a violência e atuam junto aos mais pobres. O problema está quando a religião deixa de ser instrumento de reflexão espiritual e passa a funcionar como instrumento de poder político. Quando o púlpito vira palanque, o fiel pode deixar de ser tratado como cidadão para ser tratado como eleitor. Quando o pastor transforma o adversário político em inimigo moral, a política deixa de ser debate e passa a ser uma espécie de guerra religiosa. E quando uma igreja passa a justificar violência, autoritarismo ou tortura porque essas práticas são atribuídas a um líder político considerado “do lado certo”, alguma coisa muito séria aconteceu com a própria ideia de cristianismo.

A Comissão Nacional da Verdade documentou graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar brasileira, incluindo prisões ilegais, torturas, execuções e desaparecimentos forçados. O relatório final identificou 377 responsáveis por graves violações. Isso não é opinião ideológica é, documentação histórica. Por isso, defender tortura ou transformar torturadores em símbolos políticos exige confrontar diretamente a memória das vítimas e o significado dos direitos humanos.

Há uma contradição que precisa ser discutida sem medo. Como pode uma religião fundamentada em uma mensagem de amor, perdão e solidariedade ser utilizada para justificar a violência política? Como pode alguém dizer defender os ensinamentos de Cristo e, simultaneamente, celebrar a tortura ouapoiar algum que já o exaltou? Como pode uma sociedade que se diz cristã tratar a eliminação física ou a violência contra o adversário como solução política? Isso está acontecendo no Oriente Médio, Israel aliado com os Estados Unidos, estão assassinando em nome de uma religião e um Deus que não é o Deus dos patriarcas. Essas perguntas não são ataques à fé, são perguntas sobre o uso político da fé. Cristianismo e autoritarismo não são sinônimos. Outrossim, evangelismo e extrema direita também não são sinônimos. Mas existe, sim, um fenômeno político contemporâneo que merece investigação jornalística: a utilização de símbolos religiosos para legitimar determinados projetos de poder. O perigo começa quando a cruz deixa de representar uma mensagem espiritual e passa a funcionar como uma bandeira partidária.

Outro ponto exige ainda mais responsabilidade. No debate político brasileiro, aparecem frequentemente acusações envolvendo políticos, milícias, organizações criminosas e grupos como PCC e Comando Vermelho. Entretanto, não se pode transformar suspeita, denúncia ou investigação em condenação definitiva. Ligação com organização criminosa é um fato que precisa ser demonstrado por investigação, documentos e decisões judiciais. O jornalismo sério não pode fazer aquilo que critica: condenar sem provas. Mas também não pode silenciar diante de investigações oficiais. O problema é justamente quando a política começa a conviver com estruturas criminosas como se fossem instrumentos normais de poder.

A democracia depende da separação entre Estado e crime organizado. Quando organizações criminosas tentam influenciar territórios, eleições, contratos, agentes públicos ou representantes políticos, a sociedade precisa exigir investigação rigorosa, transparência e responsabilização dentro da lei. Não existe “crime de direita” ou “crime de esquerda”, crime é crime, corrupção é corrupção e, milícia é milícia. Organização criminosa é organização criminosa. E tortura continua sendo tortura,independentemente da ideologia de quem a pratica ou de quem a justifica.

Alagoas precisa emancipar também a consciência Duzentos e nove anos depois da emancipação política de 1817, Alagoas pode olhar para sua história e perceber que independência administrativa não significa necessariamente emancipação social. O decreto de D. João VI rompeu a subordinação administrativa a Pernambuco. Mas nenhuma sociedade está definitivamente emancipada. A cada geração surgem novas formas de dependência. Ontem, a escravidão. Depois, o coronelismo. Mais tarde, diferentes formas de autoritarismo e concentração de poder. Hoje, podem aparecer novas formas de dominação por meio da desinformação, do fanatismo político, da manipulação religiosa, do poder econômico, das redes sociais e até da influência de estruturas criminosas. A escravidão contemporânea nem sempre usa correntes de ferro. Às vezes usa medo. Às vezes usa ignorância. Às vezes usa dependência econômica. Às vezes usa discursos religiosos. E, perigosamente, às vezes utiliza a própria democracia para chegar ao poder e depois atacar os princípios democráticos que permitiram sua ascensão.

A fé não deveria precisar de partido, uma igreja verdadeiramente livre, não deveria precisar de um político para sobreviver. Um cristão não deveria precisar transformar seu voto em profissão de fé. Um pastor não deveria precisar transformar adversários políticos em inimigos de Deus. E um político não deveria utilizar Jesus como cabo eleitoral. A religião pode participar do debate público, pastores e fiéis possuem os mesmos direitos políticos que qualquer cidadão. Podem votar, disputar eleições, defender propostas e criticar governos. O que precisa ser preservado é a liberdade de consciência. A fé não pode substituir a cidadania. O púlpito não pode substituir o Parlamento. A Bíblia não pode ser transformada em programa partidário. E a religião não pode servir como salvo-conduto moral para práticas incompatíveis com os direitos humanos. A verdadeira emancipação.

A história de Alagoas começou uma nova etapa em 16 de setembro de 1817. A antiga Comarca tornou-se uma capitania independente, com governo próprio. Mas a verdadeira emancipação de Alagoas não está apenas no passado. Ela está no futuro. Está na capacidade de seus cidadãos conhecerem a história da escravidão e da resistência negra, compreenderem Palmares, reconhecerem as marcas das desigualdades e recusarem qualquer tentativa de transformar violência em virtude. Está também em compreender que democracia não é adoração a políticos. Político não é messias. General não é salvador. Pastor não é dono da consciência de seus fiéis. E criminoso não pode ser transformado em autoridade moral porque eventualmente serve a determinado projeto político. A maior homenagem que Alagoas pode fazer à sua própria emancipação é ensinar às novas gerações que liberdade não é apenas separar-se de um governo; é libertar-se da ignorância, do medo, da intolerância e da submissão cega ao poder. Em 1817, Alagoas conquistou autonomia administrativa. Hoje, o desafio é muito maior: conquistar a emancipação da consciência. E uma sociedade verdadeiramente emancipada não ajoelha diante de políticos, não idolatra torturadores, não romantiza a violência e não entrega sua consciência a quem promete falar em nome de Deus. Porque a democracia exige cidadãos. E cidadãos livres não precisam de senhores.

Elias Barbosa é jornalista e escritor

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